Tchau, sobras

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Minha mãe, que Deus a tenha, deixou muitas lições nesta vida. Umas bastante aplicáveis, outras, nem tanto. De tudo que a minha mãe fez/falou, sempre me vem a lembrança uma época quando eu era criança, e era normal ela trazer os afilhados do interior para passar as férias conosco. 
Como eram pessoas humildes, que quase nunca viam aquelas novidades da cidade grande, era super normal que eles se encantassem com tudo e quisesse ter o máximo daquelas novidades, seja ela de qualquer espécie: comida, roupa, brinquedos e etc.
No almoço, vi inúmeras vezes minha mãe reclamar com seus afilhados sobre a quantidade de comida no prato:
-Pegue apenas o que vai comer e seu estômago comporta. Isso não é fome. É olho. A comida não vai sair correndo.
O discurso dela sempre foi, basicamente, o de que tenha/use apenas o que precisa. Acontece que a minha mãe era do tipo faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Eu nunca entendi como ela enchia o prato de comida, jogava mais da metade fora e reclamava quando fazíamos o mesmo.
Na casa em que morávamos, tinha 6 quartos, sendo que um deles era teoricamente de hóspede, mas na verdade, servia para abrigar um guarda-roupa (ainda não atualizei) abarrotado de roupas de cama, mesa e banho. Na cozinha foi preciso fazer um anexo, para que ela pudesse guardar todas as panelas e vasilhas que ela insistia em colecionar. 
Veja, não fazia sentido o discurso tenha/use apenas o que precisa.
No auge da minha rebeldia e da nossa guerra fria, eu virei uma consumista de primeira linha. Sempre tinha mais do que queria ou precisava. No fundo, era uma forma de mostrar para a minha mãe que eu também podia cometer esses desatinos. Houve época em que cheguei a ter mais de 100 pares de sapatos, mais de 30 bolsas, roupas e mais roupas, que algumas eu me desfiz sem sequer tirar a etiqueta.
A verdade, é que por mais que você use palavras para conscientizar sei lá o que, de nada adianta se você não dá o exemplo, e a vida, meus amores, ela sempre ensina. Seja por amor ou pela dor.
Ainda sem perceber o viria a seguir, eu comecei a me desfazer de algumas coisas da casa, quando fiquei sozinha. Era muita coisa desnecessária e que eu jamais precisaria. Não fiz isso porque, enfim, aprendi a lição da minha mãe. Fiz porque queria mesmo me livrar daquelas coisas. 
E então que as vacas que estavam magras começaram a ficar anoréxicas e eu, que cheguei ao ponto de vender o almoço para pagar o jantar, comecei a me questionar se realmente havia necessidade de ter todas aquelas coisas. A sensação que eu tinha era de que comprava compulsivamente para preencher algo que eu nem sabia o que era.
A situação apertou bastante e por mera questão financeira eu comecei a me desfazer de algumas coisas. No começo, eu fiquei desesperada, porque embora fossem coisas fora de uso, eu fiquei com a sensação de que em breve poderia precisar delas, mas, como disse, a coisa estava bem apertada e por uma questão alimentar, era vender ou passar fome. Vendi.
Depois de um tempo, a sensação de desapego começou a fazer bem e eu pude, enfim, começar a entender o que a minha queria dizer. Eu tinha coisa que não precisava, mas tinha, apenas para dizer que tinha, mesmo que aquilo fizesse muito mal ao meu bolso. 
Hoje, depois de muito quebrar a cara, parei de ostentar. Tenho exatamente o que preciso para viver no mínimo de conforto e sempre que vejo uma coisa que quero muito, eu fico refletindo se além do desejo material há mesmo alguma necessidade em adquirir tal coisa. É óbvio que eu ainda tenho uns surtos e saio comprando a loka de tudo, mas compro bemmmm menos do que tempos atrás. 
Neste final de ano, resolvi me livrar de tudo que está encostado. Seja projetos, pessoas, sentimentos, roupas, sapatos e acessórios. Tudo aquilo que está no cantinho, esperando uma chance, eu resolvi deixar ir. Quem precisa de uma chance sou eu, porque lá no fundo, é bem legal quando você aprende a conviver com aquilo que você precisa, sem sobras, sem acúmulos. ;)

0 Contando um conto e aumentando um ponto.:

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