Crônicas de um desabafo #2

terça-feira, 12 de novembro de 2013

É provável que alguém não goste do rumo que o Blog está tomando (na verdade, quando o criei ele não tinha rumo nenhum), mas é algo que se faz necessário no meu processo de tratamento, então, desde já peço desculpa para quem não gosta de ler "lamentações, sofrimento e desabafos", que vez ou outra pintarão por aqui.

Na semana passada, a minha terapeuta me pediu para escrever sobre um episódio traumático da minha infância, e como eu tive muitos, foi difícil escolher um, mas depois de tanto relembrar aquelas coisas que você passa a vida lutando para esquecer, resolvi contar quando descobri que o meu irmão era o meu melhor amigo.

Minha mãe, como vocês já sabem, era alcoólatra. E como toda boa alcoólatra, amava festas de rua. Não perdia uma e sempre nos levava a tiracolo, já que não tinha com quem nos deixar. 
Eu odiava aquelas festas. Odiava e odeio até hoje. Não havia nada agradável para uma criança. Era um monte de gente amontoadas em barracas e bebendo como se não houvesse amanhã.
Minha mãe gostava de chegar cedo para garantir um bom lugar na tradicional barraca que ela frequentava e que inclusive, havia ficado amiga da dona.
Basicamente, eu e meus irmãos ficávamos sentando em banquinhos durante todo o dia, tomando um refrigerante vez ou outra e comendo aquelas comidas feitas no dia anterior e carregadas de gordura, que só Deus sabe em que condições de higiene foram preparadas.

Em uma dessas festas de rua, quando a noite chegava e nós estávamos aguardando a dona da barraca chamar um táxi, já que a minha mãe havia tomado todas e não tinha condições nenhuma de fazer isso sozinha, rolou um confusão repentina, um corre corre, cadeiras voando e de repente alguém atirou uma garrafa de cerveja que foi certinha na testa do meu irmão, que caiu sangrando e desacordado. 
Veja, eu era uma criança, acho que tinha entre sete e oito anos e a única coisa que eu consegui entender foi: meu irmão morreu.
Entrei em pânico. Comecei a chorar, gritar que meu irmão estava morto, olhava para a minha mãe, com aquele olhar de quem implora por ajuda, mas acho que ela não conseguia entender o que estava acontecendo..ela só olhava tudo surpresa, como se nem ela estivesse ali.
Lembro de ter abraçado o meu irmão no chão, chorando e pedindo para ele levantar, porque já estávamos indo para casa. Não lembro com exatidão de tudo que aconteceu naquele dia e do que se deu a seguir..mas lembro bem quando a dona da barraca me tirou de cima do meu irmão e eu fiquei desesperada, batendo as pernas e gritando, porque eu acreditava que ele estava morto e que ela estava levando ele para algum lugar e que eu nunca mais o veria. 
Algumas pessoas conseguiram me separar dele e me colocaram perto da minha mãe, que tentava entender o que estava acontecendo e mesmo muito bêbada, eu tenho certeza que ela também estava muito assustada com aquela confusão.
A dona da barraca levou meu irmão para o hospital e outra pessoa, que eu não sei quem, me levou para casa com a minha mãe.
Foi uma das piores dor que eu já senti na vida. Eu tinha certeza que meu irmão estava morto e odiava todos aqueles que não me deixaram ficar com ele. Lembro de ter ficado na cama chorando até adormecer.
Lembro também de ter acordado no dia seguinte e encontrar o meu irmão em casa, com uma atadura na cabeça e o rosto um pouco inchado. Essa, sem dúvida, foi uma das melhores sensações já sentida por mim. Meu irmão estava ali, de volta, ele não havia morrido. 
Desde esse dia fatídico que eu nunca mais larguei o meu irmão. Nos tornamos tão amigos, que daquele dia em diante sempre dávamos um jeitinho de ficar juntos. Estudamos na mesma escola, fizemos os mesmo cursos, desenvolvemos o mesmo gosto musical, de comida...era como se o meu irmão fosse a minha extensão. 
O tempo passou, crescemos...tomamos nossos rumos, ele casou e eu fui madrinha do seu casamento. Ele teve filho e eu sou madrinha do seu filho e até hoje ele não toma nenhuma decisão sem antes me consultar.
Houve um período ruim da minha vida que eu me afastei de toda família e soube depois que ele sofreu muito com isso. E foi por isso que eu voltei, que voltei a ser família outra vez. Foi por ele e por mais ninguém.




3 Contando um conto e aumentando um ponto.:

  1. Fiquei arrepiada com tua história.
    Lembrei-me de minha relação com minha irmã e como a tenho como uma extensão de mim *-*
    Desejo toda felicidade e cumplicidade para você e teu irmão viu?
    Que vocês conservem a amizade e o amor sincero que há entre vocês.
    Parabens.
    http://www.viciodiario.com/

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  2. Caramba, estou lendo um livro chamado Livre, da Cheryl Strayed, e seu texto me lembrou bastante a forma de escrever sobre recordações e sentimentos que ela usa no livro, que é autobiográfico e muito bom, por sinal, conhece?
    Resumindo: você escreve muito bem...

    Beijos, moça!
    Clá |blog uma garota carioca|

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  3. Apenas: escreva um livro, por favor. Tô comprando já!
    Adorei a história, de verdade. Sempre que vejo coisas assim eu tenho vontade de ter um irmão (eu tenho, mas ele tem 7 meses, então nesse quesito não conta) e saber como é essa cumplicidade, essa relação toda... Me parece meio surreal a ideia de ter alguém que é mais ainda que um amigo, que passa por praticamente as mesmas coisas que você e enfim.
    Bom, que você e seu irmão continuem sempre juntos assim!

    Beijos

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