Crônicas de um desabafo

sábado, 26 de outubro de 2013

Não costumo postar aos Sábados, mas como estou em débito com as postagens aqui, aproveitei para quitar o débito e explicar o motivo da ausência. É que agora além do trabalho e do inglês à noite (eu voltei) eu voltei também a fazer terapia. Cheguei em um momento da minha vida que seguir em frente sem ajuda estava praticamente impossível. E eu preciso seguir em frente.

Eu tive uma infância 100% contraditória. Se por um lado eu tive muitos amigos e explorei ao máximo a expressão ser criança, por outro, tive todos os meus medos e traumas alimentados pelo fantasma do alcoolismo da minha mãe. Sim, minha mãe era alcoólatra e até eu entender e aceitar o que de fato era isso, a nossa convivência, ou melhor, da família toda, não foi nem um pouco fácil. 
Minha mãe até que tentava ser boa no papel, só que ela só conseguia isso quando não estava bêbada, e isso, acreditem, raramente acontecia. Naquela época, era comum os abusos físicos e psicológicos: apanhávamos por qualquer motivo e éramos ofendidos até quando dormíamos, se duvidar. 
Cresci cheia de traumas, de medos, com a autoestima na lama, me julgando sem nenhum valor, já que sempre que possível minha mãe reforçava com suas intermináveis reclamações. Os amigos, que eram muitos e eu até hoje não entendi como foi possível trazer e fazer ficar tanta gente perto de mim, foram a minha válvula de escape para não enlouquecer.

O tempo passou e os traços daquela menininha frágil, hostilizada e abusada psicologicamente mostravam que ainda estavam por aqui. Isso era fácil perceber nos relacionamentos fracassados em que eu entrava e saía num piscar de olhos. Nunca soube ou quis fazer nada, porque não acreditava que era capaz de fazer algo realmente bom, embora eu nunca tenha repetido de ano e sequer feito uma recuperação. Sempre fui ótima aluna e lembro da minha professora de História, Gisélia, me dizendo que eu ia longe, que tinha talento. Estranhamente eu só conseguia acreditar nisso dentro da sala de aula. Fora, me considerava um lixo, só esperando o seu momento de ser recolhido. 
Por um bom tempo eu tive um comportamento destrutivo, que eu acreditava ferir a minha mãe, como se fosse uma vingança por tudo que ela havia me feito sofrer. Quanta ingenuidade, diria, burrice.
A única pessoa a sofrer era eu. Percebi isso um pouco tarde. Me senti envergonhada e me afastei do mundo. Me isolei. Cheguei a pesar quase 100 kg. Passava dias, semanas sem pentear os cabelos. Semanas com a mesma camisola. Esqueci o que era fazer as unhas, depilação, cuidar de mim. Esqueci o que era ser mulher. Me dei conta que há mais de um ano que eu não dava um beijo, selinho que fosse, em alguém. Eu estava acabada. Fundo do poço.com Game over para mim.
Procurei ajuda por vontade própria. Não foi fácil, mas eu consegui. Voltei a me enxergar, mas não gostei do que vi. Corri atrás de mudanças, mas certas coisas deixadas no caminho não são mais possíveis recuperar. Aprendi a (sobre) viver sem elas. Fiz as pazes com a minha mãe. Entendi que ela era doente e que assim como eu, também precisava de ajuda. Infelizmente, quando percebemos isso ela não tinha muito tempo, mas foi o bastante para que eu a desculpasse por todas as mazelas e qualquer sentimento de culpa que existia entre nós. 
O tempo passou, as coisas foram tomando seus rumos, meu pai se foi, me vi sozinha, outra vez, mas desta vez com a enorme sensação de abandono. Um vazio tomou conta de mim e, de novo, eu quis desistir.
Não desisti. Continuei. Tropecei aqui, caí ali, levantei acolá e aqui estou, tomando consciência de traumas que eu nem sabia existir e disposta a lutar contra todos eles. O Blog, inclusive, foi a forma terapêutica que encontrei para desabafar no anonimato. Sim, a razão para eu não colocar fotos ou nome é justamente essa: poder desabafar sem o medo do julgamento, sem o véu da vergonha ou fantasmas do passado.
Antes de clicar em "publicar" esse texto, liguei para a minha terapeuta e falei sobre isso. Segundo ela, é uma grande passo para o progresso que desejo. 
Será?
Espero que sim. 
Não saia correndo se por acaso entrar aqui e encontrar alguns posts "muro das lamentações". Tudo isso faz parte do meu crescimento e da minha caminhada. Segura a minha mão e vem comigo?
Beijos. 



7 Contando um conto e aumentando um ponto.:

  1. Segurando sua mão e indo contigo *-*
    Adorei a sua coragem por desabafar tanta coisa aqui no blog.
    E sabe o que me deixou mais orgulhosa? a sua pulsão de vida de continuar lutando. Parabéns viu.
    http://www.viciodiario.com/

    ResponderExcluir
  2. Oi, dona ex-princesa-atual-plebeia!
    Vim aqui no seu blog pra retribuir o comentário que deixou no meu blog, e gostei muito do que escreve por aqui! Entendo a satisfação de se expressar por meio da escrita num blog, e gostei dos fatos do seu cotidiano que expõe aqui, independente de serem identificados ou não :)
    Boa sorte na terapia e nas transformações que você vem buscando !A gente precisa de muita coragem pra empreender esse tipo de coisa :)
    beijos! =**

    http://beyondcloudnine.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  3. Cara, o que eu posso dizer depois de ler um texto como esse?

    :\

    Força sempre.
    www.fernandaprobst.com.br

    ResponderExcluir
  4. Amore, só posso te desejar muita força, e que Deus a ajude encontrar a paz. As vezes nos sentimos fracos e vulneráveis, mas precisamos tirar desses momentos a força que não temos. Não pelos outros, mas por nós mesmos. Pra que amanhã isso não passe de uma fase, que te ajudou a crescer e a se fortalecer. Espero de verdade que Deus seja seu apoio nesses momentos.
    Obrigada por me visita lá no Blog.
    Bjs
    www.laiscristine.com

    ResponderExcluir
  5. Que Deus derrame muitas benção sobre você, só ele pode nos
    ajudar. Beijos.

    Beijos
    Blog | Divulgue seu sorteio | Divulgue seu post no meu blog

    ResponderExcluir
  6. Caramba, moça, que desabafo corajoso, hein? Mesmo não se identificando e tudo o mais (e só agora eu entendi o motivo, sempre me perguntava porque não tinha nome no seu blog kkk) considero um ato de força e coragem escrever sobre tudo isso, até porque é uma forma de encarar as coisas de frente e colocá-las para fora, né?

    Beijos e boa sorte nessa sua jornada, querida! ;)
    Clá |blog uma garota carioca|

    ResponderExcluir
  7. Colaborarei para a tua melhora.
    Foi uma infância/vida difícil e isso mostra como os meus "problemas" são fúteis. Tomara que tu encontre mais caminhos para tornar os teus dias mais alegres, com menos dor e tristeza.
    Segue o barco!

    ResponderExcluir







Design e código feitos por Julie Duarte. A cópia total ou parcial são proibidas, assim como retirar os créditos.
Gostou desse layout? Então visite o blog Julie de batom e escolha o seu!