Muitas histórias e um só cabelo. Parte I

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Meu cabelo sempre foi liso. Não aquele liso, escorrido, digno de capa de revista de moda, mas aquele liso cacheado, comprido, batendo na cintura, que certamente hoje faria sucesso, mas naquela época só uma coisa importava: eu queria ter cabelo liso, escorrido, sem uma ondulação sequer.

Minha mãe não tinha muita paciência para pentear ou cuidar dos meus cabelos, mas não deixava cortar e ainda me obrigava a viver de trança all the time. Eu odiava. Sem contar que era chato para lavar, secar, desembaraçar..um sofrimento.

Daí que entre os meus 12/ 13 anos eu resolvi que queria usufruir de todos os benefícios que o cabelo poderia me proporcionar e achei que cortando alguns centímetros isso me deixaria bem mais bonita, descolada e também faria com que a minha mãe deixasse ele solto. 

[ Quando eu digo aqui minha mãe, talvez você não entenda, mas ela era uma espécie de General dos tempos modernos. Era brava, autoritária e usava da força quando achava necessário, ou seja, sempre. /]

Então que eu economizei no lanche da escola e parti para o salão mais badalado do bairro em que morava. Lá, a mocinha responsável deu um aperitivo do que seria aquele dia de merda:

-olha, eu não corto cabelo. Só faço escova e hidratação. A pessoa que corta só vem amanhã. Sua mãe sabe que você vai cortar o cabelo?
-Claro que sabe. Foi ela quem deu o dinheiro. Só não veio comigo porque está ocupada.

Se eu atentasse para os sinais divino, eu teria ido embora e deixado de lado essa coisa de cortar cabelo, mas eu nunca fui de prestar atenção nos sinais. Me despedi e fui procurar outro salão.

Encontrei alguns metros depois e fui bem recebida pela funcionária. Falei que queria cortar alguns "dedos" de cabelo, para que ficasse mais fácil pentear.
A simpática me jogou em uma cadeira, sacou avental, pente, tesoura e começou a fazer sugestões do corte tal, modelo não sei das quantas e por aí vai. Eu, no alto dos meus 12/13 anos, estava totalmente entregue nas mãos daquela pessoa que eu julgava ser profissional. Em poucas palavras ela me convenceu a fazer um corte de camadas..eu não sabia o que era, mas ela garantiu que ficaria lindo. Aceitei.
Quando percebi, eu estava a cara de um poodle. O cabelo que antes era na cintura, agora estava na altura dos ombros, parecendo o rabo de um pavão, sem nada nas laterais e um pimpão na frente, que seria o mullet. Morri.

Fui para casa completamente anestesiada. Primeiro,porque eu já sabia que a surra seria garantida, mas se fosse para apanhar, que fosse pelo menos em causa nobre, só que o meu cabelo não tinha nada de nobre.
Segundo, a ideia era melhorar minha autoestima adolescente, mas só conseguiu jogá-la no lixo.

Vou pular a parte do ataque histérico da minha mãe e ir para a parte dela fazendo o maior escândalo na porta do salão, ameaçando processar Deus e o mundo. Nisso, chega a dona do salão, chama a minha mãe para uma conversa particular e oferece um ano de tratamento gratuito para toda família, em nome do esquecimento da causa, já que a minha mãe berrava que ia procurar o Juizado de Menor, já que eu era uma criança e bla bla bla (insira aqui o que o Juizado tinha a ver, porque até hoje eu não entendi).

Por fim, minha mãe aceitou fazer o acordo com a dona do salão, mas antes, claro, tinha a minha punição:
-Corta o cabelo dela todo. Estilo Joãozinho, que é para ela aprender a não desobedecer.
-Não precisa cortar assim, senhora, podemos dar um jeito.
-A senhora é surda? Eu mandei cortar Joãozinho. E corte logo, antes que eu mande passar a máquina 0.

E assim, a duras penas e sem o meu cabelo, aquela foi apenas mais uma das inúmeras vezes que a minha mãe tentou me provar quem mandava ali e quem tinha a palavra final.



1 Contando um conto e aumentando um ponto.:

  1. Pooooooooooxa! Olha, vou dizer que entendo bem o que voce está dizendo. Meu pai nunca me deixou cortar o cabelo. ele sempre foi grande, ondulado. Podia usar como eu quisesse e deixava quase sempre solto porque tinha vergonha das minhas orelhas. Mas, tive a fase de querer cortar. Copiar cortes de cabelo de uma ou outra pessoa. Nunca fiz isso. Você teve mais coragem que eu, viu.

    É uma pena que mães e pais ainda tenham essas atitudes, né? :/

    Ainda bem que cabelo cresce. O que fica estragado pra sempre é uma relação que era pra ser tão melhor.

    Um beijo

    www.kvcomvoce.com

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